Temperatura no Distrito Federal subirá cada vez mais

0
14

Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

Em 50 anos, temperatura no Distrito Federal aumentou 2 ºC. Os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam ainda que, até o final do século, a alteração nos termômetros pode chegar a 8 ºC. O calor contribui para a propagação de incêndios, que neste ano bateram recordes, e ocasiona também o uso exacerbado da água. É o que mostra a segunda reportagem de série sobre as alterações no clima do DF e a crise hídrica.

PUBLICIDADE

A emissão dos gases de efeito estufa na atmosfera é a principal causa do aquecimento e, aqui na capital, quatro setores são os principais emissores: os gases dos automóveis estão em primeiro lugar; em segundo, os das fábricas de cimento; seguidos do Lixão da Estrutural e, por último, os da agricultura. Os dados são da Secretaria de Meio Ambiente (Sema), que analisou a emissão de gases do efeito estufa de 2005 a 2012.

Matéria relacionada

Crise hídrica: por que estamos rumo ao limite?

O compilado de informações é alarmante: a capital do País emite mais gases poluentes advindos do transporte do que São Paulo. “Por metro quadrado, nós emitimos mais do que o estado paulista. São dois carros por habitante. Somos uma unidade pequena, mas muito adensada”, afirma Leila Soraya Menezes, chefe da Unidade Estratégica de Clima da Sema. “Vamos ter que fortalecer metrô, BRT, trem, e retirar os carros da rua. Porque não adianta criar estradas, vias, para desafogar o trânsito. Mais tarde vão estar engarrafadas novamente”, completa.

A estimativa é de que os números, que pararam de ser mensurados em 2012, estejam ainda maiores atualmente. “Tivemos um crescimento populacional e aumento na taxa de motorização e no volume de resíduos. Por exemplo, nosso aeroporto aparece pouco nos dados de 2012, só que nos últimos anos ele triplicou de tamanho e a quantidade de pousos e decolagens aumentou”, pondera.

Recordes “derretem” a cidade

  • Neste ano, o recorde de temperatura foi de 37,4 ºC – a maior marca da história – e a umidade chegou a 11%, colocando a capital em estado de emergência.
  • Em 2014, a sensação térmica chegou a 40 ºC em alguns pontos da cidade, enquanto as estações de monitoramento registraram 18% de umidade relativa do ar.
  • Em outubro de 2015, o DF marcou a temperatura máxima de 35,9 ºC em um dia, e no dia seguinte 36,4 ºC. Na época, a umidade relativa do ar chegou a 10%. Já no ano passado, a temperatura mais alta registrou 34,9 ºC e umidade de 18%.

Noites de calor

De acordo com Josefa Morgana de Almeida, chefe de meteorologia do Inmet, que colaborou para a pesquisa do aumento da temperatura do DF, as noites ficaram mais quentes e os dias consecutivos secos também aumentaram.

“Os estudos apontam que as capitais que tiveram uma crescente urbanização apresentaram alterações térmicas. No DF pegamos a estação do Sudoeste e entre os resultados foram os aumentos nas temperaturas mínimas sazonais. As noites ficaram mais quentes, então elas não conseguem esfriar o calor do dia”, aponta.

Os gases poluentes são os principais causadores desse fenômeno, segundo Josefa: “O efeito estufa é bom na medida certa, pois os gases fazem com que a Terra não reduza a temperatura. Caso contrário, a temperatura média seria de 15 ºC, então ele é vital. O problema é que, na medida em que se inserem mais gases na atmosfera, eles não vão conseguir se dissipar”, detalha.

Nem no Nordeste fará tanto calor

O estudo da Secretaria do Meio Ambiente, em conjunto com o Inmet e outros órgãos, aponta que se nenhuma medida for tomada no Distrito Federal, até o fim do século as tendências podem ser impressionantes.

“Haverá, até 2100, um aumento generalizado nas temperaturas, e esse aumento pode variar de 2 ºC a 8 ºC acima da temperatura média esperada. Do ponto de vista da precipitação, haverá diminuição das chuvas, com a tendência de ficarem mais fortes, com mais intensidade e menor duração”, explica Leila Soraya Menezes.

Segundo a chefe da Unidade Estratégica de Clima da Sema, o foco das anomalias climáticas é o Centro-Oeste. “Depois vai se espalhando para o restante do País. Então, é possível que aqui no DF aqueça mais do que no Nordeste”, aponta. “São projeções, um cenário possível, não é que será desse jeito. Mas é bom a população saber, porque cada um tem que fazer sua parte para mudarmos essa tendência”, completa.

Comércio lucra

Enquanto para uns será sofrimento, para o comércio será a oportunidade de lucrar mais com a venda de ventiladores, aparelhos de ar-condicionado e umidificadores. Na última seca, o gerente de uma elétrica da Asa Sul Eustáquio dos Santos Silva, 38 anos, aponta que as vendas aumentaram em 15%.

“Ultimamente as pessoas têm procurado mais por ventiladores na época do calor. Elas buscam mais conforto para tentar aguentar o calor que tem feito em Brasília”, conta.

Os modelos de ventiladores na loja de Eustáquio variam entre R$ 170 e R$ 1 mil. Há equipamentos de chão, de teto e de parede. “O que conta é se a marca é reconhecida e, com certeza, o design do eletrodoméstico”, afirma.

Apesar de vender ventiladores, Eustáquio afirma que em casa busca usar o climatizador. “Eu consigo resolver duas coisas de uma vez só: o calor e a umidade baixa. Então, o ambiente fica mais agradável para suportar a seca”, comenta.

Na loja ao lado, o vendedor Paulo Ricardo Lopes, 29 anos, tem a mesma opinião: “As vendas aumentam em época de calor e seca. Os clientes vêm muito procurar ventilador”. Ao imaginar se as projeções estiverem certas, Paulo brinca que não vai mudar de profissão. “É triste, mas vamos ganhar um dinheiro a mais”, comemora.

VERSÃO OFICIAL

Embora os dados apontem que os transportes são a principal fonte de gases poluentes, o secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, aposta que esses números reduziram consideravelmente. “A partir de 2013 passamos a ter a frota mais nova do Brasil, e ela veio com motores menos poluentes. Agora temos o diesel S10, naquela época o diesel era o S500, que era mais poluente. Introduzimos também o ônibus a biodiesel, estamos analisando a introdução de ônibus elétricos, e a própria política de desenvolvimento da Secretaria de Mobilidade, como o bilhete único, bicicletas compartilhadas, são vantagens para que as pessoas possam deixar o carro em casa”, alega.

Em nota, a cimenteira Ciplan informou que tem feito estudos para reduzir a emissão de gás carbônico na atmosfera. “Para tanto, ela (indústria cimenteira) prepara-se para concluir o seu Mapeamento Tecnológico do Cimento, projeto que tem por objetivo prospectar, planejar e apresentar uma série de ações capazes de contribuir para uma efetiva redução das emissões de carbono da indústria até 2050”, aponta.

Já a empresa Votorantin Cimentos esclareceu em nota que realiza o aproveitamento de pneus e biomassas para substituir parte do combustível fóssil em sua fabricação de cimento, localizada em Sobradinho, desde 2004. “A companhia participou da COP 21, em Paris, em 2015, e assumiu o compromisso de reduzir as emissões em entre 20% e 25% até 2030. Em 2016, a Votorantim Cimentos já alcançou 21,6% no volume de substituição de combustíveis, responsáveis por deixar de emitir 213 mil toneladas de CO2, o que equivale a um caminhão dando 1,7 mil voltas ao redor da Terra”, alega.

Em relação às emissões de gases do Lixão da Estrutural, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou, também por nota, que tem instalado drenos de gases para diminuir os impactos do metano e chorume. “Já temos mais de 200 drenos instalados no local. Esses drenos facilitam a captura dos gases e possibilitam a sua queima. A queima do metano nesses drenos gera monóxido de carbono, que é um gás 25 vezes menos prejudicial que o metano em termos de efeito estufa. Ou seja, estamos reduzindo a contribuição ao efeito estufa em 25 vezes, para em torno de 4% do potencial original”, aponta. Além disso, o SLU reiterou que o governo tem trabalhado na desativação do lixão e na abertura do aterro sanitário em Samambaia.